Os AMIGOS são ANJOS que, quando não conseguimos CAMINHAR, dão-nos ASAS e ensinam-nos a VOAR. - José Carlos Valério

domingo, 16 de outubro de 2011

Quem foi Khalil Gibran...

Dado que as duas últimas publicações que fiz neste espaço - 'Os Filhos' e 'A Amizade' - remetem para a obra 'O Profeta',  de Khalil Gibran, e porque me rendi completamente à mesma, achei por bem partilhar um pouco da história deste autor, também ela constante da referida obra. Espero que gostem e que desfrutem...




«Khalil Gibran, ou simplesmente Gibran, nasceu a 6 de dezembro de 1883, em Bicharre, aldeia da região montanhosa do norte libanês, a pouca distância dos milenares cedros. A sua família vivia em precárias condições. Seu pai era um simples coletor de impostos rurais. A mãe, viúva de um casamento anterior, era igualmente humilde.

Desde criança que demonstrou uma incontrolável paixão por tempestades. Quando tinha oito anos, uma violenta tempestade abateu-se sobre a cidade onde vivia. Para desespero dos pais, o pequeno Khalil recusou-se a procurar abrigo, preferindo correr ao encontro de ventos, chuva e relâmpagos. Mais tarde, Khalil afirma que as tempestades libertam o seu coração das preocupações e sofrimentos.

Quando completa doze anos, sua mãe emigra para os Esados Unidos e o seu pai permanece no Líbano. Aparentemente, a difícil situação económica em que viviam tornou impossível a convivência entre seus pais. Sua mãe, Kamilah, decide ir para os Estados Unidos, mais concretamente para Boston, com Gibran e seus irmãos: Sultana, Mariana e Pedro, o único filho do casamento anterior. Vão morar para um pequeno gueto de sírio-libaneses, perto do Bairro Chinês de Boston, arredores da Rua Hudson. E é aqui que tem início a odisseia americana de Khalil Gibran.

Toda a família trabalha no que pode, para sobreviver. Três anos mais tarde, em 1898, Gibran é mandado de volta para o Líbano, sozinho. Em Beirute, estuda num colágio de padres maronistas. Dedica-se ao árabe, ao francês e à literatura oriental e ocidental. Demonstra raro interesse pelo estudo das religiões, o que o leva a confrontar os ensinamentos cristãos com as informações recolhidas nos livros islâmicos. Praticamente, devora a Bíblia e o Alcorão.

Em 1903, de regresso a Boston, Gibran está decidido a tentar viver das suas aptidões para a literatura e para a pintura. Colabora com jornais da comunidade sírio-libanesa nos Estados Unidos e dedica-se a aperfeiçoar o seu inglês.

Toda a sua família continua a trabalhar intensamente. Sua mãe e suas duas irmãs são costureiras, enquanto o irmão é empregado numa loja. Khalil não volta a estudar, pois está decidido a viver da sua arte. O século começa com várias tragédias fatais para a sua família.

Entre 1902 e 1903 Gibran perde a irmâ Sultana, a mãe e o meio-irmão Pedro, atinigidos por doenças graves. Vive com a irmã Mariana, que sustenta ambos com o seu trabalho de costureira. A partir dessa altura, Khalil dedica-se por inteiro ao trabalho artístico.

Em 1904, realiza a sua primeira exposiçãp de pintura e desenho num atelier em Boston.  É aí que conhece a Professora Mary Haskell, que viria a ter im papel decisivo na sua vida. Gibran tem, então, vinte e um anos e Mary torna-se na sua amiga fiel e companheira constante.

Mary ajuda Gibran a aperfeiçoar os seus conhecimentos de Inglês e dá-lhe o apoio sem o qual, jamais conseguiria realizar a maioria dos seus projetos.

Em 1908, viaja para Paris, onde Mary se oferece para lhe pagar os estudos artísticos. É assim que permance em Paris por quase três anos, a estudar na Escola de Belas Artes e na Academia Julien  Conhece Auguste Rodin. Uma das suas telas é escolhida para a Exposição de Belas-Artes, em 1910. A temporada pariense é intensa e fértil. Gibran estuda, visita museus, escreve, pinta…

De regresso a Boston, vai morar algum tempo com a irmã Mariana. Porém, no outono de 1911, Gibran muda-se para Nova Iorque, onde aluga um atelier no número 51 da Rua Oeste 10, um edifício em pleno Greenwich Village. Gibran reúne à sua volta um grupo de escritores  libaneses e sírios, formando a Academia Literária, que muito contribuiu para o renascimento das letras árabes. Apesar de toda esta efervescência, o que realmente Gibran aprecia é trabalhar e isolar-se ao máximo. As suas aparições em público tornam-se cada vez mais raras, pois só se sentia verdadeiramente livre quando estava só. Come pouco e trabalha muito. Evita ao máximo, compromissos sociais. Todo o seu potencial exuberante concentra-se na sua obra literária, numa carreira que iniciou em 1905 e tendo escrito quase exclusivamente em árabe.

Nesse período e até1920, publica sete livros nessa língua: ‘A Música’, ‘As Ninfas do Vale’, ‘Espíritos Rebeldes’, ‘Asas Partidas’, ‘Uma Lágrima e um Sorriso’, ‘As Procissões’ e ‘Temporais’.

Quase todos estes livros tiveram grande impacto no mundo árabe, pois abordam temas polémicos e introduzem significativas transformações no tratamento do idoma, apontando-lhe novas possibilidades e retirando-lhe o véu de milénios. Gibran é reconhecido como escritor. Rebelde na literatura e conservador nas artes plásticas, embora preserve sempre com devoção a liberdade de criação e proclame a sua fé na liberdade do artista.

Simultaneamente, torna-se um retratista de enorme prestígio. Pratica muito talentosamente a arte de reproduzir rostos, sendo requisitado com frequência para retratar notáveis personalidades da época. Contudo, é na criação de telas que Gibran espera atingir o que, na sua conceção, designaria por pintura mística, através de quadros que refletem sempre uma inspiração clássica. Dizia: “Quero que cada quadro seja o início de um outro quadro invisível.”

Gradualmente, Gibran deixa de escrever em árabe, passando a dedicar-se ao inglês, publicando, em 1919, o seu primeiro livro nessa língua: ‘O Louco’.

Outros se lhe seguiram: ‘O Precursor’; ‘O Profeta’; ‘Areia e Espuma’; ‘Jesus’, ‘O Filho do Homem’; ‘Os Filhos da Terra’.

Depois de sua morte ainda foram publicados mais dois livros: ‘O Errante’ e ‘O Jardim do Profeta’.

Khalil Gibran faleceu a 10 de abril de 1931, no Hospital de São Vicente. Em Nova Iorque, agonizando entre gemidos confusos, numa crise pulmonar que o deixaria totalmente inconsciente. Contava quarenta e sete anos de idade. O seu corpo foi levado para Boston, onde ficaria sepultado provisoriamente no cemitério de Forest Hills.

A 21 de agosto de 1931, os seus restos mortais são levados para Beirute, seguindo depois, numa impressionante procissão, até Bicharre. No alto da montanha, Gibran é sepultado no antigo convento escavado na rocha de Mar Sarkis, onde imaginou os seus últimos dias, a meditar.

Sobre o túmulo onde descansa, uma simples inscrição: “Aqui, entre nós, dorme Gibran”.

Khalil Gibran pregava a fé num ser humano elevado à sua mais infinita potência: “Não siga ninguém nem acredite em coisa nenhuma a não ser na sua própria imortalidade”.

‘O Profeta’, obra máxima de Khalil Gibran, desde o seu lançamento, em 1923, tem alcançado sucesso permanente, como poucos outros livros o têm conseguido. É um livro que atrai, não apenas pelo pensamento e pelo estilo, mas também pela filosofia de vida nele contida. Khalil prega a ternura evangélica como filtro do progresso massacrante e da impiedosa competitividade dos tempos modernos. Sem impôr ideologias, Gibran tenta despertar a bondade e a beleza escondidas na angústia e no desespero que invadem  a nossa existência.

Em suma, Khalil Gibran convida-nos a vivermos as coisas boas da vida, a sermos dignos delas e a aproveitarmos o que há de mais elevado em cada um de nós.»

Khalil Gibran, O Profeta

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